Quando uma vinha velha desaparece, perdemos muito mais do que algumas videiras.
Perdemos décadas, por vezes mais de um século, de adaptação a um território. Perdemos castas tradicionais, conhecimento transmitido entre gerações e uma parte da identidade de um lugar.
Mas talvez a perda mais preocupante seja outra: quando uma vinha velha desaparece, desaparece também mais uma razão para alguém continuar a viver naquele território.
Nas Arribas do Douro, como em tantas outras regiões de Trás-os-Montes, a paisagem que hoje admiramos é o resultado de gerações de trabalho humano. Os muros de pedra, os pequenos socalcos e as vinhas plantadas em terrenos difíceis são testemunhos de uma relação secular entre as pessoas e a terra.
O despovoamento, o envelhecimento das populações e a falta de rentabilidade de muitas atividades agrícolas têm colocado esse património em risco. Muitas vinhas não são abandonadas porque deixaram de produzir boas uvas, mas porque deixou de existir quem as trabalhe ou porque o valor da sua produção já não justifica o esforço necessário para as manter.
E é aqui que os pequenos produtores podem fazer a diferença.
Num território onde a dimensão das parcelas e as condições naturais dificultam a produção em grande escala, talvez o futuro não esteja em produzir mais, mas em produzir com maior valor.
Recuperar vinhas abandonadas, preservar castas tradicionais e transformar esse património em produtos capazes de conquistar reconhecimento e mercados pode ser uma forma de manter viva a atividade económica e, com ela, o próprio território.
Mas para isso precisamos de mais do que boas intenções. Precisamos de mais produtores, mais investimento e, sobretudo, de mais pessoas com vontade de arriscar.
Pessoas dispostas a olhar para aquilo que muitos consideram uma limitação — o isolamento, as pequenas parcelas, as baixas produtividades ou a dificuldade de trabalhar estas terras — e reconhecer aí uma oportunidade de criar algo verdadeiramente diferente.
Não será um caminho fácil, nem necessariamente o mais rentável a curto prazo. Mas dificilmente conseguiremos contrariar o abandono se continuarmos à espera de que as soluções venham exclusivamente de fora.
Foi também com essa convicção que nasceu a Arribas Wine Company, em 2017. A nossa dedicação às vinhas velhas não resulta apenas da vontade de produzir vinhos singulares, mas também da consciência de que existe um património extraordinário que merece ser preservado e valorizado.
Sabemos que um pequeno produtor não consegue, sozinho, inverter décadas de despovoamento. Mas acreditamos que cada vinha recuperada, cada parcela que continua a ser trabalhada e cada vinho que leva o nome das Arribas do Douro mais longe representa um contributo para o futuro desta região.
E acreditamos, acima de tudo, que não podemos fazer este caminho sozinhos. Quanto mais produtores acreditarem neste território, quanto mais projetos nascerem e quanto maior for a diversidade de iniciativas, mais fortes serão as possibilidades de construir uma economia rural sustentável.
Porque preservar não pode ser apenas um exercício de nostalgia. Preservar tem de ser também uma oportunidade económica, capaz de dar às pessoas razões para ficar, regressar ou começar de novo.
É relativamente fácil calcular quanto custa recuperar uma vinha velha. Muito mais difícil é calcular quanto custa perdê-la.
Quando morre uma vinha velha, não desaparece apenas uma parte do passado. Desaparece também uma possibilidade de futuro.